Psicanálise

O fato de reportamos a noção de Gestalt – tal como Merleau-Ponty a compreende – à teoria dos fenômenos psíquicos de Brentano, permite-nos não apenas a crítica à noção fenomenológica de intencionalidade. Permite-nos também o comentário a respeito da noção freudiana de pulsão.

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A razão para tal reside em que, assim como a noção husserliana de intencionalidade, também a noção freudiana de pulsão está literalmente associada à teoria brentaniana dos fenômenos psíquicos. Mais do que isso, a teoria freudiana, no que diz respeito à gênese das pulsões, absorve o formato gestáltico atribuído por Brentanto aos fenômenos psíquicos. Mas não permite que esse formato domine as construções metapsicológicas produzidas a partir da teoria das pulsões. O que leva Merleau-Ponty a reproduzir contra Freud algumas das críticas que já havia dirigido à teoria husserliana da intencionalidade.

Freud assistiu as disciplinas de Brentano entre os semestres de 1874 e 1876. Importava a Freud resgatar do filósofo a ideia de que os fenômenos psíquicos poderiam ser definidos como “representantes” de uma unidade provisória e parcial, sem objeto definido, no limite entre o somático e o mental, entre o individual e o social. A ideia de que tais representantes formam-se de modo espontâneo, sem estarem limitadas às faculdades mentais ou às necessidades anatomofisiológicas, permitiu a Freud (1996c) conceber uma outra origem para os sintomas intratáveis pela psicologia e pela psiquiatria, por exemplo, os sintomas histéricos.

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Conforme o fundador da psicanálise, não é impossível que aquelas experiências de satisfação ou insatisfação primitivas, para as quais não encontramos uma representação mental já instituída na linguagem e que tampouco podemos suprir por meio de uma função biológica preexistente, permaneçam registradas no limiar do mental e do somático como um representante de algo indeterminado. Trata-se, na esteira de Brentanto, de fenômenos psíquicos, aos quais Freud preferiu denominar de “pulsões”. Nas palavras de Freud (1996a, p. 142), “se agora nos dedicarmos a considerar a vida mental de um ponto de vista biológico, uma ‘pulsão’ nos aparecerá como sendo um conceito situado na fronteira entre o mental e o somático, como o representante psíquico dos estímulos que se originam dentro do organismo e alcançam a mente, como uma medida de exigência feita à mente no sentido de trabalhar em consequência de sua ligação com o corpo”.

Da mesma forma, para Freud (1996d), à medida que consistem no registro de algo que se perdeu, não é impensável que os representantes pulsionais provoquem uma sensação de angústia, a qual exigirá uma defesa, seja ela da ordem da repetição ou da ordem da substituição somática ou mental da satisfação/insatisfação agora perdida. Eis aqui os sintomas.

Entender – a partir da experiência de escuta clínica aos sintomas dos pacientes -os efeitos e as formas de defesa engendrados a partir dos fenômenos psíquicos (denominados por Freud de pulsões) seria o programa mais elementar das reflexões metapsicológicas formuladas por Freud (1996b e 1996e).

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Para Merleau-Ponty, entretanto, as construções metapsicológicas de Freud não conseguiram incorporar o estilo gestáltico presente na forma como o próprio Freud compreendeu a noção de pulsão. Em vez disso, procuraram descrever as defesas psíquicas a partir de princípios inspirados nas ciências naturais, como se toda defesa psíquica fosse o efeito específico de um conflito entre uma pulsão e um valor cultural historicamente determinado. A singularidade da escuta às produções sintomáticas dos pacientes foi subordinada à uniformidade de uma metapsicologia baseada na ideia de que os conflitos entre as pulsões e a cultura estão investidos de uma regularidade universal, a qual, uma vez detectada, poderia favorecer a dissolução dos sintomas. Conforme afirma na obra Structure du Comportement ( 1942, p. 192), “o que gostaríamos de perguntar, sem colocar em questão o papel assinalado por Freud à infra-estrutura erótica e às regulações sociais, é se os próprios conflitos de que ele fala, os mecanismos psicológicos que ele descreveu, a formação dos complexos, o recalque, a regressão, a resistência, a transferência, a compensação, a sublimação exigiu verdadeiramente o sistema de noções causais pelo qual Freud as interpreta, e que transforma em uma teoria metafísica da existência humana as descobertas da psicanálise”.

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Para Merleau-Ponty, melhor teria sido se Freud admitisse que também as defesas psíquicas ou sintomas são formações gestálticas, que envolvem, além da repetição das pulsões, modos de criação que devem sua singularidade ao tipo de vínculo estabelecido, por exemplo, entre o paciente e o psicanalista, mais além da historicidade que pudéssemos reconhecer para cada qual. A esse respeito, diz Merleau-Ponty, “(o) tratamento psicanalítico não cura provocando uma tomada de consciência do passado, mas em primeiro lugar ligando o paciente ao seu médico por novas relações de existência. Não se trata de dar um assentimento científico à interpretação psicanalítica e de descobrir um sentido nocional do passado, trata-se de revivê-lo como significando isto ou aquilo, e o doente só chega a isso vendo seu passado na perspectiva de sua coexistência com o médico” (1945, p. 519).

Reafirmando sua intuição de que nossa existência já manifesta um sentido antes mesmo de se reconhecer como consciência ou “eu”– o que o opõe a fenomenologia husserliana -, mas sem ceder a tentação de reduzir esse sentido ao efeito de um conflito que pudesse ser historicamente determinado – o que o distingue de uma certa maneira de se compreender Freud-, Merleau-Ponty pode admitir o êxito da psicanálise, porque reconhece nela o restabelecimento clínico do primado da coexistência, que é uma outra maneira de referir-se à implicação formal que define a Gestalt.

Muller & Muller © 2014