Detalhes desta atividade

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DISCURSOS LIVRES SOBRE A ARTE DA ESCUTA A LITERATURA NO ESPAÇO CLÍNICO: narrativas e discursos


Depois de Freud, a clínica tornou-se um lugar ético cuja característica mais marcante consiste no fato de que, nela, se pode dizer tudo. No que ela se parece à literatura. Mas o que é a literatura? Conforme Derrida (1992, p. 38):

“Literatura como instituição histórica, com suas convenções, regras, etc., mas também essa instituição de ficção que dá, em princípio, o poder de dizer tudo, de desvencilhar-se das regras, de desloca-las, e, desse modo, instituir, inventar e também suspeitar da diferença tradicional entre natureza e instituição, natureza e lei convencional, natureza e história. Aqui deveríamos levantar questões jurídicas e políticas. A instituição da literatura no ocidente [maiúscula], em sua forma relativamente moderna, está ligada à autorização para se dizer tudo, e, sem dúvida também, à vinda de uma ideia moderna de democracia. Não que ela dependa de uma democracia no seu lugar, mas parece-me inseparável do que causa uma democracia, no sentido mais amplo (e, indubitavelmente, ele mesmo por vir) de democracia”.

Ora, que tipo de instituição é essa, em que se pode dizer tudo? Qual é a sua lei? Nas palavras de Derrida (1992, p. 36):

“Dizer tudo é, sem dúvida, reunir, por meio da tradução, todas as figuras umas nas outras, totalizar através da formalização, mas dizer tudo é também transpor [franchir] proibições. Franquear-se [s’affranchir] – em todos os campos onde a lei pode burlar a lei. A lei da literatura tende, em princípio, a desafiar ou a transgredir a lei. Ela nos permite, portanto, pensar a essência da lei na experiência desse “tudo dizer”. É uma instituição que tende a transbordar a instituição”.

E se nos autorizássemos a pensar a clínica como espaço de transbordamento? Teríamos aí uma empresa literária? Esta é a principal questão proposta no presente estudo.

Pensar a interface entre as narrativas produzidas no espaço clínico e a literatura enquanto instituição transgressora, eis aqui é objetivo da proposta de trabalho do Núcleo de Estudos em Fenomenologia, Psicanálise e Gestalt para o ano de 2017. Trata-se de compreender em que sentido, no espaço clínico, profissionais e usuários autorizam-se a transgredir os discursos que, implicitamente, organizam as narrativas que se fazem dizer e escutar. O que implica discutir em que termos, por conta de sua literalidade ou literatura, as narrativas clínicas são reinvenções dessa instituição primitiva, que chamamos de nossa “subjetividade”.

E qual é – mais além dos dispositivos de normalização que reproduzimos em nossas narrativas – o tema que melhor traduz nossos tentativas de redescrição das instituições subjetivas, que somos nós mesmos enquanto corpos, organismos e personalidades sociais?

Famosa é a expressão segundo a qual a psicanálise é a cura pelo amor. E todos sabemos, num momento ou noutro da vida e da análise, voltamo-nos prioritariamente para o tema do amor, como o mais íntimo de nós mesmos. De sorte que, em nossos estudos, trata-se de compreender como o amor se diz e se reinventa enquanto literatura nas narrativas produzidas em regime de transferência e confidencialidade.

E como o amor se diz enquanto literatura no contexto clínico?

Ele se diz primeiro como ordenação das nossas ações ao olhar dos outros, numa palavra, imagem. O amor é o esforço de cada qual para habitar o olhar que o outro nos dirige e nos oferece uma paisagem, um cenário, uma história, enfim, uma imagem. O que nos leva a pergunta: como hoje somos olhados? Quais são as imagens em que nos alienamos? Tema do primeiro módulo de estudos.

Mas as imagens também são simbólicas. Simbólicas desse mesmo outro que nos olha, mas que nunca vemos exatamente. As imagens aqui são significantes desse outro que, no mesmo momento que se apresenta, ausenta-se, falta-nos. E, assim, motiva-nos em uma busca incessante, que chamamos de desejo. Mais além do amor que experimentamos como espelhamento face ao olhar do outro, desejamos esse mesmo outro que sempre nos falta. E que será o objeto dos estudos no segundo módulo.

Uma inversão se produz no momento em que esse outro ausente, buscado, enfim, desejado, inscreve não exatamente um símbolo, o significante de sua falta, mas a marca da sua inalienabilidade junto às imagens que nos constituem. O

outro já não carece de ser buscado, pois está aí. Mas, nem por isso, deixa-se compreender. Ele apresenta-se como o estranho. E, diante dele, agora tornamo-nos passivos. Tudo se passa como se fôssemos descentrados de nosso protagonismo junto as imagens proporcionadas pelo olhar do outro. Tornamo-nos seu objeto. Já não se trata de ver através do olhar do outro. Por ele somos agora vistos. Nas palavras de Merleau-Ponty (1964, p. 230)

(…) meu olhar tropeça, é circundado. Sou investido por eles, quando julgava investi-los, e vejo desenhar-se no espaço uma figura que desperta e convoca as possibilidades de meu próprio corpo como se se tratasse de gestos ou de comportamentos meus (…). Tudo se passa como se as funções da intencionalidade e do objeto intencional se encontrassem paradoxalmente trocadas. O espetáculo convida-me a tornar-me espectador adequado, como se um outro espírito que não o meu viesse repentinamente habitar meu corpo, ou antes, como se meu espírito fosse atraído para lá e emigrasse para o espetáculo que estava oferecendo para si mesmo. Sou apanhado por um segundo eu mesmo fora de mim, percebo outrem…”.

Aos nossos convidados, nossas boas vindas

NFPG – Núcleo de Estudos em Fenomenologia, Psicanálise e Gestalt

 

I Parte – ESCUTANDO IMAGENS: O VISÍVEL COMO NARRATIVA

 

04 MAR/17 – IMAGENS DO AMOR

(WORKSHOP DE FORMAÇÃO DO GRUPO) – 12h

“O amor é um modo de olhar, é ver-se nos olhos do outro, é ver-se observado, furtivamente”, Roland Barthes (2003)

BARTHES, R. Fragmentos de um discurso amoroso. São Paulo: Martins Fontes, 2003. DIDI-

 

01 ABR/17 – RISÍVEIS AMORES – 4h

‘…todo o valor do homem está ligado a essa faculdade de se superar, de existir além de si mesmo, de existir no outro para outro.”

“Mas pergunto como se pode querer ser um conquistador numa terra onde ninguém nos resiste, onde tudo é possível, onde tudo é permitido? A era dos dom-juans está terminada. O atual descendente de Dom Juan não conquista mais, apenas coleciona.”

KUNDERA, Milan. Risíveis amores. SP, Cia das Letras, 2012.

 

29 ABR/17 – AMORES INFERNAIS – 4h

“A gente abria e fechava; isso se chamava piscar. Um pequeno clarão negro, um pano que cai e se levanta, e aí a interrupção (…) Quatro mil repousos em uma hora. Quatro mil pequenas fugas”.

“Aquele que me olha é sempre o meu carrasco”.

“O inferno são os outros”.

SARTRE, J-P. Entre quatro paredes. Trad. Alcione Araújo e Pedro Hussak. 4ed. RJ, Civilização Brasileira, 2008.

 

27 MAI/17 – AMORES VISÍVEIS – 4h

“O que vemos só vale – só vive – em nossos olhos pelo que nos olha. Inelutável porém é a cisão que separa dentro de nós o que vemos do que nos olha”.

HUBERMAN, G. O que vemos, o que nos olha. 2ª ed. São Paulo: Editora 34, 2010.

 

II Parte – ESCANDO SÍMBOLOS: A INVISIBILIDADE DAS ESTRUTURAS

 

24 JUN/17 – AMOR INVISÍVEL – 4h

“O nome de Diadorim, que eu tinha falado, permaneceu em mim. Me abracei com ele. Mel se sente é todo lambente — “Diadorim, meu amor…” Como era que eu podia dizer aquilo? Explico ao senhor: como se drede fosse para eu não ter vergonha maior, o pensamento dele que em mim escorreu figurava diferente, um Diadorim assim meio singular, por fantasma, apartado completo do viver comum, desmisturado de todos, de todas as outras pessoas — como quando a chuva entre-onde-os-campos. Um Diadorim só para mim. Tudo tem seus mistérios. Eu não sabia. Mas, com minha mente, eu abraçava com meu corpo aquele Diadorim-que não era de verdade. Não era? A ver que a gente não pode explicar essas coisas. Eu devia de ter principiado a pensar nele do jeito de que decerto cobra pensa: quando mais-olha para um passarinho pegar. Mas — de dentro de mim: uma serpente. Aquilo me transformava, me fazia crescer dum modo, que doía e prazia. Aquela hora, eu pudesse morrer, não me importava”.

ROSA, J. G. Ficção completa em dois volumes. São Paulo: Nova Aguilar, 2009. 2009, p. 189-190).

 

15 JUL/17 – AMOR AMBÍGUO – 4h

“A relação da poesia com a linguagem é semelhante a do erotismo com a sexualidade. Também no poema – cristalização verbal – a linguagem se desvia de seu fim natural: a comunicação”.

PAZ, Octávio. A dupla chama do amor.

 

05 AGO/17 – AMOR DESEJANTE – 4H

A saber, que, embora o desejo pareça, com efeito, carregar consigo um certo montante de amor, trata-se muitas vezes de um amor que se apresenta à personalidade como conflituoso, de um amor que não se declara, que inclusive se recusa a se declarar.

LACAN, O seminário, livro 6: o desejo e sua interpretação. Tradução de Claudia Berliner. Rio de Janeiro: Zahar, 2016. p. 13).

 

02 SET/17 – AMOR FEMININO – 12H

(WORKSHOP TEÓRICO-PRÁTICO)

 

Là ci darem la mano, Là mi dirai di sì. Vedi, non è lontano; Partiam, ben mio, da qui.

MOZART, W. Ópera Don Giovanni

 

“Don Juan é um sonho feminino. O que seria preciso, em cada ocasião, é um homem que fosse perfeitamente igual a si mesmo, como a mulher pode, de certa maneira, se vangloriar

de sê-lo em relação ao homem. Don Juan é um homem ao qual não faltaria nada. [...] É quase banal sublinhar a relação de Don Juan com a imagem o pai enquanto não castrado. O que é talvez menos banal é marcar que esta é uma pura imagem feminina”.

LACAN, 1972-73/1975. O Seminário: livro 20. Mais ainda. Paris: Seuil. p. 224).

 

III Parte – HOSPEDANDO ESTRANHOS – PONTOS CEGOS, FANTASMAS INFILTRAÇÕES …

 

07 OUT/17 – 4h – O PUNCTUM DO AMOR

“Como espectador, eu só me interessava pela Fotografia por

‘sentimento’; eu queria aprofundá-la, não como uma questão (um tema),

mas como uma ferida: vejo, sinto, portanto, noto, olho e penso”

BARTHES, Roland. A câmara clara

 

10. 11 NOV/17 – 04h – O REAL DO AMOR

“Ouve-me, ouve o silêncio. O que eu te falo nunca é o que te falo e sim outra coisa. Capta essa coisa que me escapa e no entanto vivo dela e estou à tona de brilhante escuridão. Um instante me leva insensivelmente a outro e o tema atemático vai se desenrolando sem plano mas geométrico como as figuras sucessivas em um caleidoscópio”.

LISPECTOR, Clarice. Água Viva.

 

12. 09 DEZ/17 – AMOR COMO OUTREM

WORKSHOP DE ENCERRAMENTO

 

“(…) há um narcisismo fundamental de toda visão, daí por que, também ele sofre, por parte das coisas, a visão por ele exercida sobre elas; daí, como disseram muitos pintores, o sentir-me olhado pelas coisas, daí minha atividade ser identicamente passividade – o que constitui o sendo segundo de mais profundo do narcisismo: não ver de fora, como os outros veem, o contorno de um corpo habitado, mas sobretudo ser visto por ele, existir nele, emigrar para ele, ser seduzido, captado, alienado pelo fantasma, de sorte que vidente e visível se mutuem reciprocamente, e não mais se saiba quem vê e quem é visto.”

 

MERLEAU-PONTY. Le visible et l’invisible. 1964, p. 183

BIBLIOGRAFIA

DERRIDA, Jacques. Acts of literature. Jacques Derrida edited by Derek Attridge. New York. US: Routledge, 1992. P. 33-75

_____. A Escritura e a diferença. Trad. De Maria Beatriz Marques. Niza da Silva. 3ed. SP: Perspectiva, 2002.SP USP, 1967.

MERLEAU-PONTY, Maurice. Signes. Paris, Gallimard. 1964.

Muller & Muller © 2014